Podcast "Humano nos Desastres" | Episódio 1: Juliana Severo e a força da solidariedade na reconstrução após as inundações de 2024
- Abner Willian Quintino de Freitas
- 22 de mai.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 3 dias

Os desastres são frequentemente retratados por números: quantidade de pessoas afetadas, residências destruídas, perdas econômicas e infraestrutura danificada. Mas, por trás desses indicadores, existem histórias de vida que revelam o impacto humano de uma emergência e os desafios da reconstrução.
É com esse propósito que nasce o podcast "Humano nos Desastres", uma série composta por cinco episódios produzida pelos Fellows do Programa Hopeful de Direitos Humanos e Desastres, financiado pela FAPERGS, por meio do Edital Programa Manutenção de Talentos Tecnológicos – Emergência Climática. O projeto busca registrar memórias, preservar experiências e ampliar a compreensão sobre os impactos sociais, emocionais e humanos das inundações que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.
Uma inundação onde ela jamais imaginou que a água chegaria
A primeira convidada da série é Juliana Severo, moradora de Eldorado do Sul. Durante a entrevista, Juliana relembra que escolheu sua casa justamente por acreditar que ela estava em uma área segura. Quando a adquiriu, ouviu que somente uma inundação sem precedentes alcançaria aquele local.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Em poucas horas, a água invadiu sua residência, atingindo cerca de 1,40 metro de altura. A casa permaneceu inundada por 21 dias, e sua família precisou ficar aproximadamente um mês longe de casa. Naquele momento, Juliana já acolhia três famílias que haviam perdido suas casas nas áreas mais baixas da cidade. Pouco depois, precisou abandonar também a própria residência.
O relato evidencia um aspecto recorrente em grandes desastres: mesmo pessoas que acreditavam estar fora das áreas de risco podem ser surpreendidas por eventos extremos cuja magnitude ultrapassa os cenários anteriormente conhecidos.
A decisão de partir
Um dos momentos mais marcantes do episódio é a descrição da evacuação.
Juliana conta que, inicialmente, ninguém acreditava que a água entraria na casa. A preocupação era apenas deixar o local antes que as estradas fossem completamente bloqueadas. Ela saiu levando apenas uma pasta com documentos, uma cesta de frutas e uma muda de roupas para si e para o filho.
Pouco tempo depois, as vias de acesso foram interrompidas e a família conseguiu atravessar uma das últimas pontes ainda abertas. Ao olhar para trás, ela percebeu que havia sido um dos últimos veículos a deixar a cidade antes do isolamento completo.
Seu relato demonstra como, em situações de rápida evolução, o tempo disponível para tomar decisões pode ser extremamente curto, reforçando a importância de sistemas de alerta, comunicação de risco e planos familiares de evacuação.
Quando a solidariedade se torna uma rede de resposta
Embora tenha perdido praticamente tudo dentro de casa, Juliana transformou sua experiência em uma intensa atuação voluntária.
Enquanto permanecia abrigada na casa da irmã, o local acabou se tornando um verdadeiro centro de distribuição de ajuda humanitária. Caminhões com doações chegavam de diferentes estados brasileiros, enquanto voluntários organizavam alimentos, água, medicamentos, fraldas, roupas, produtos de higiene e até ração para animais.
Ao longo de semanas, o grupo abasteceu abrigos, apoiou famílias, distribuiu insumos para equipes da Defesa Civil e forças de segurança e atendeu pedidos que chegavam por redes sociais e aplicativos de mensagens. A logística funcionava praticamente de forma ininterrupta, impulsionada por uma extensa rede de solidariedade formada por familiares, igrejas, empresas, caminhoneiros e pessoas que nunca haviam se encontrado pessoalmente.
A experiência mostra que, durante grandes desastres, as redes comunitárias frequentemente complementam a resposta institucional, ampliando a capacidade de assistência às populações afetadas.
Reconstruir uma casa é diferente de reconstruir uma vida
Quando finalmente retornou para casa, Juliana encontrou um cenário completamente diferente daquele que havia deixado.
Os móveis haviam sido descartados, os objetos pessoais perdidos e lembranças construídas ao longo de muitos anos desapareceram. Fotografias, recordações da infância do filho e pertences de valor afetivo não puderam ser recuperados.
Apesar da reconstrução material ter ocorrido gradualmente, com apoio de familiares, campanhas solidárias, doações e auxílios governamentais, ela relata que algumas marcas permanecem presentes até hoje. O medo diante de novas chuvas, a sensação constante de insegurança e a dificuldade em retomar a rotina fazem parte das consequências que permanecem mesmo após a recuperação física da cidade.
Seu depoimento evidencia que os impactos de um desastre ultrapassam os danos materiais, afetando saúde mental, relações familiares, trabalho, sensação de pertencimento e projeto de vida.
"O que importa são as pessoas"
Ao longo da conversa, uma ideia aparece repetidamente.
Para Juliana, a principal aprendizagem deixada pelas inundações foi compreender que nenhuma pessoa atravessa um desastre sozinha.
Ela relata que precisou da ajuda de familiares, vizinhos, amigos, desconhecidos e voluntários para recomeçar. Em suas palavras, "a gente precisa das pessoas". A experiência transformou sua forma de enxergar a vida, reduzindo a importância dos bens materiais e reforçando o valor da solidariedade, da empatia e do cuidado coletivo.
Também chama atenção sua preocupação com aqueles que ainda enfrentam consequências psicológicas das inundações, especialmente crianças, pessoas com deficiência e famílias que permanecem tentando reconstruir suas vidas dois anos após o desastre.
Preservar memórias para fortalecer comunidades
O episódio reforça um dos principais objetivos do podcast "Humano nos Desastres": registrar experiências que possam contribuir para a construção de uma memória coletiva sobre as inundações de 2024.
Ao dar voz às pessoas afetadas, a série amplia a compreensão sobre os impactos humanos dos desastres, permitindo que pesquisadores, gestores públicos, profissionais e a sociedade aprendam a partir das vivências daqueles que estiveram diretamente envolvidos na emergência.
Mais do que contar uma história individual, o relato de Juliana evidencia que reconstruir uma comunidade depende tanto da recuperação da infraestrutura quanto do fortalecimento das redes de solidariedade, da saúde mental e do senso de pertencimento.
O podcast integra as ações do Programa Hopeful de Direitos Humanos e Desastres, reafirmando o compromisso da Hopeful e da FAPERGS em transformar experiências vividas durante a emergência climática de 2024 em conhecimento, memória e aprendizado para a construção de comunidades mais resilientes.

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